7 de jul. de 2011

O Rock Morreu?



Venho por meio dessa reconhecer minha incompetência e intolerância no julgamento das recentes manifestações artísticas conduzidas pela nova geração do Rock Nacional.
 
Minha cegueira fora fruto de um conceito totalmente descontextualizado.
 
Quis esse tempo todo enxergar nesses meninos e ouvir de suas musicas experiências que não couberam a essa safra de jovens. O mercado reflete o que a maioria se identifica e naturalmente minha visão retrograda não há de servir como referência.
 
Concluí essa questão hoje quando fui a um acampamento e me lembrei de que quando tinha 13, 14 anos não existia ainda a internet. Me restava o mundo real. Andar no meio do mato, rodar pelos interiores do país, conversando em volta da fogueira, ouvindo os mais velhos tocando musicas que não conheci pelo rádio ou pela TV.
Vagar pelas estradas em busca de lugares onde poderia com meus amigos exercer uma liberdade quase imoral atualmente. Viajar em ônibus de carreira de um lado para o outro sem me preocupar com a violência atual que acua e assola todos nós num universo de medo e paranóia.
 
Conhecer pessoas só era possível estando diante delas pessoalmente.
 
Isso sem dúvida nenhuma me fez ter uma outra visão do que me cercava.
 
Guardo estas e outras recordações em um terreno do meu cérebro que quando acesso me permite fazer contato com experiências que talvez  sirvam apenas a uma minoria.

Ficou tudo tão mais simples, fácil e seguro. Embora existam riscos como em qualquer meio, a nova geração de jovens conta com um modelo de vida muito diferente do que parte da minha geração viveu.
 
Resguardados em computadores, sites de relacionamentos, MSN, entre outros aplicativos que permitem viajar o mundo sem sair do lugar, estamos construindo uma sociedade de seres reclusos.  Condomínios, Shoppings, lugares onde podemos ter uma sensação maior de proteção. Isso a quem tem condições financeiras. Aos mais pobres a realidade permanece a mesma e suas manifestações culturais em geral são exercidas por outros Gêneros.
Longe de ser uma questão classista, é muito natural que cada região do país e cada ponto da cidade envolva a diversidade em seus ventres, todavia, tratando-se de rock é mais fácil de encontrá-lo entre os jovens de classe média de São Paulo do que entre os de classe baixa que convivem nas favelas do Rio de janeiro e isso se reflete diretamente na temática abordada, o que não impede obviamente de existir jovens roqueiros nas comunidades e funkeiros circulando pelos condomínios de luxo de Alphaville.
 

 
O exemplo acima é apenas uma maneira de observar as variações de estilos vigentes dentro da diversidade da musica brasileira. Entretanto, como trabalho com Rock e estou fazendo uma análise da atual situação de meu NICHO de mercado é natural que não traga a luz a outros gêneros como axé, pagode, sertanejo, forró e etc., que são manifestações culturais legítimas e no caso de algumas delas nascidas e exportadas pelo Brasil.
 

 
Eventualmente acontecem fenômenos que transcendem as influências sociais e acabam atingindo todas as camadas por tratarem de assuntos comuns aos jovens. O Hip Hop por exemplo passou por um estágio onde se tornou extremamente popular em suas expressões,tanto através da musica, quanto das roupas, passando pelos temas e pelo comportamento, sendo encontrado e feito por garotos e garotas de todas as classes sociais e redutos desse país.
 

 
Onde quero chegar?
 

 
A arte, há tempos deixou de ser um elemento contestador e transformador para assumir apenas mais um tentáculo da economia voltada para o lucro de todos os envolvidos na indústria do entretenimento. O capitalismo é uma realidade e as utopias morreram, de modo que seria uma grande bobagem acreditar que os grandes veículos de massa estariam interessados em disseminar cultura e conteúdo para o seu público e ignorar o apelo daqueles que tem poder aquisitivo de investimento e interesse no consumo da parcela jovem da população que atualmente não tem qualquer interesse no velho modelo de expressão artística pautado por uma ótica muito mais qualitativa do que quantitativa. Até porque a quantidade hoje é muito superior a qualidade e como dita a ordem mundial, vale o que se tem e não o que se é.
 

 
Venndo uma entrevista com Leoni, musico, compositor e escritor, concordei quando disse: “hoje o maior produto que as rádios tem a oferecer é seu público”.
 

 
Pautados pela audiência que dita o valor que os anunciantes pagarão para ter sua propaganda vinculada em meio a programação, os artistas deixaram de ser protagonistas e se tornaram apenas o elo de ligação entre os vendedores e os ouvintes, ficando nas mãos deles a decisão sobre o que interessa ou não chegar a parcela de jovens que consumirá seus produtos.
 
São os vendedores de carros, de roupas, de comida, de bens materiais em geral quem escolhe o que serve ou não para ser executado pelas FMs e o tal do “IBOPE” tornou-se uma referência indispensável ao anunciante na hora de decidir em qual veículo de comunicação irá dispor seus investimentos.
 

 
Dentro dessa realidade, até o velho Jabá praticamente perdeu seu efeito. Ainda existe para aqueles que podem gastar algum dinheiro por um mês ou dois, todavia é sem dúvida nenhuma a audiência quem determina o que vai ou não parar na cabeça dessa juventude.
 

 
O que traz audiência?
 

 
Aqueles artistas que estão falando a mesma língua do público.
 
Como vive e o que faz a nova geração que predomina como público do rock atualmente?
 

 
Passa o tempo no shopping, nos sites de relacionamentos, nos MSNs da vida, vivendo realidades muito distantes das que foram experimentadas, por exemplo, pelos artistas da década de 80 que estavam sob forte influência da ditadura, ou daqueles que ainda viveram as ruas nos anos 90 e tinham como apelo temas mundanos. A geração 2000 é composta por adolescentes criados em apartamentos, condomínios, cercadinhos, protegidos por pais neuróticos e apavorados com a violência estampada nas notícias de jornais e noticiários de TV.  O Rock passou a ser uma forma de expressão que retrata apenas esse universo e fala somente com esses meninos e meninas que vivem uma realidade muito distante do mundo real.
 

 
SEM GENERALIZAR.
 

 

 
Não interpretem isso como uma crítica e sim como uma constatação, de modo que é uma bobagem cobrar dessa geração que se comportem dentro de um contexto que não viveram.
 

 
Nós, que ouvimos e vivemos uma outra forma de relacionamento com o mundo naturalmente não nos identificamos com essa visão atual, mas devemos reconhecer que eles são a maioria e como maioria são o alvo prioritário dos veículos que fazem a ponte entre os vendedores e seus consumidores em potencial. De modo que embalados por empresários, produtores e investidores que estão interessados apenas nos lucros é natural que se espalhe a mentalidade atual do mercado com o único interesse de criar celebridades que não ousem questionar, impor ou sobrepor idéias que possam modificar essa mina de dinheiro.
 

 
Como marginal nessa história toda e é bom lembrar que marginal é apenas quem está a margem de alguma coisa, concluo que o meu equívoco foi apostar numa linguagem que não atinge a grande maioria e por conta disso me condicionou a um afastamento natural nesse choque de gerações.
 
Participei ativamente e busco participação ainda no mundo do entretenimento, pois foi o que aprendi a fazer. Contudo, reconheço que não tenho mais o apelo que tinha há tempos atrás.  Isso é ruim?
 
Poderia ser, se não fosse a teoria da CALDA LONGA. ( leiam o Livro )
 

 
Sendo assim, venho por meio desta reconhecer que, ao menos que aqueles que compartilham da mesma mentalidade se unam para expor uma nova abordagem e consigam através de meios alternativos juntar e formar um novo público e uma nova geração de jovens que venham a apreciar outras formas de rock para com isso fortalecer uma cena diferente da que estamos criticando e condenando injustamente, teremos de aturar essas referências por bastante tempo. Até que surja um novo movimento lá fora que seja mais interessante economicamente ao modelo vigente e anule o que estamos recebendo como referência. Como sabemos que o estilo passa por um processo de infantilização é muito improvável que tenhamos algum artista com poder de transformação real até 2012 quando o mundo vai se acabar.
 

 
O rock morreu?
 
Não, nós estamos ficando velhos!